Ao entrar no hospital, subi as escadas até o corredor que indicava ‘U.T.I. e Centro Cirúrgico’. Já eram oito horas, o horário de visita acabara de começar, porém ninguém liberou a entrada dos inquietos parentes desoláveis. A mulher ao meu lado estava sentada timidamente, muito longe do encosto da poltrona; ela estava com as palmas da mão viradas uma para a outra na altura da boca, rezando? Fiz uma prece para todos os infortunados daquela seção. Meus olhos transcorreram o chão e focalizaram uma mancha de sangue seca, mas todos pareciam transtornados demais para notar. Ouvi um grito estridente de dor, e em seguida a porta de onde ele vinha foi aberta: uma mulher com os olhos inundados se retirou dando passos largos e seu marido tentava acompanhá-la sem sucesso. Outras duas louras mulheres atraentes derretendo-se em choro alto atravessaram em seguida. A sala parecia finalmente em silêncio, até um homem que permaneceu sentado desde quando cheguei levantar-se e rumar a porta que dava acesso aos pacientes. Os casais voltaram a murmurar seus pêsames ou terminarem de bisbilhotar alguma intriga: que lugar melhor que um hospital para enredar? Eu parecia a única pessoa que estava simplesmente feliz por estar no local. Eu seria culpada por me apresentar sorridente? Talvez não, ninguém me notava.
Meu pensamento oscilava entre a beleza da medicina e a da fé. Quanta descoberta, tecnologia, prática, abordagem, conhecimento; e o mais impressionante: garantir os estados mentais, físicos, psicológicos e sociais de uma pessoa, visando seu bem estar, o bem estar de todos. Quantas pessoas clamando por um milagre, se sentindo confortadas por saber que logo estarão no paraíso eterno, quantas vêem Deus naquele minúsculo recinto para sua grandeza, Ele é amor, e Ele está presente. Para mim, tudo era bom. Seria eu condenada por achar o sangue escorrido, a dependência obsessiva de cura e até a morte tão graciosos?
Finalmente um enfermeiro anunciou o nome dos pacientes que poderiam ser visitados, entrei. Vi a mais bela avó, a guerreira, apesar de sua forma incapacitada, ela era linda. Cada palavra que eu dizia, podia sentir uma resposta. Quando contei sobre meu sonho em família detalhadamente, seu batimento cardíaco acelerou; ao dizer o quanto as pessoas a amavam ela parecia querer afirmar: ‘eu também vos amo’. Acariciando sua pele, o tempo passou repentino, dei-lhe um beijo e me retirei.
Já estava tarde quando cheguei a minha casa. Deitei-me em meu leito e senti meu corpo num intenso calafrio. Nenhuma coberta me aquecia, retraía-me contorcionando meu próprio corpo. Uma brisa de insegurança me atingiu, eu estremeci, caiu uma lágrima, duas; gemi, meus dentes batiam freqüentemente, meu ouvido tampava à medida que movimentava meu maxilar, minha face endureceu, minha barriga ressonava um murmúrio baixo, o estômago latejava, abracei a dor e a fraqueza dominou-me.
A vida em Gráficos.
Há 14 anos
