terça-feira, 16 de dezembro de 2008

nel modo più sincero che c'è

Ao entrar no hospital, subi as escadas até o corredor que indicava ‘U.T.I. e Centro Cirúrgico’. Já eram oito horas, o horário de visita acabara de começar, porém ninguém liberou a entrada dos inquietos parentes desoláveis. A mulher ao meu lado estava sentada timidamente, muito longe do encosto da poltrona; ela estava com as palmas da mão viradas uma para a outra na altura da boca, rezando? Fiz uma prece para todos os infortunados daquela seção. Meus olhos transcorreram o chão e focalizaram uma mancha de sangue seca, mas todos pareciam transtornados demais para notar. Ouvi um grito estridente de dor, e em seguida a porta de onde ele vinha foi aberta: uma mulher com os olhos inundados se retirou dando passos largos e seu marido tentava acompanhá-la sem sucesso. Outras duas louras mulheres atraentes derretendo-se em choro alto atravessaram em seguida. A sala parecia finalmente em silêncio, até um homem que permaneceu sentado desde quando cheguei levantar-se e rumar a porta que dava acesso aos pacientes. Os casais voltaram a murmurar seus pêsames ou terminarem de bisbilhotar alguma intriga: que lugar melhor que um hospital para enredar? Eu parecia a única pessoa que estava simplesmente feliz por estar no local. Eu seria culpada por me apresentar sorridente? Talvez não, ninguém me notava.
Meu pensamento oscilava entre a beleza da medicina e a da fé. Quanta descoberta, tecnologia, prática, abordagem, conhecimento; e o mais impressionante: garantir os estados mentais, físicos, psicológicos e sociais de uma pessoa, visando seu bem estar, o bem estar de todos. Quantas pessoas clamando por um milagre, se sentindo confortadas por saber que logo estarão no paraíso eterno, quantas vêem Deus naquele minúsculo recinto para sua grandeza, Ele é amor, e Ele está presente. Para mim, tudo era bom. Seria eu condenada por achar o sangue escorrido, a dependência obsessiva de cura e até a morte tão graciosos?
Finalmente um enfermeiro anunciou o nome dos pacientes que poderiam ser visitados, entrei. Vi a mais bela avó, a guerreira, apesar de sua forma incapacitada, ela era linda. Cada palavra que eu dizia, podia sentir uma resposta. Quando contei sobre meu sonho em família detalhadamente, seu batimento cardíaco acelerou; ao dizer o quanto as pessoas a amavam ela parecia querer afirmar: ‘eu também vos amo’. Acariciando sua pele, o tempo passou repentino, dei-lhe um beijo e me retirei.
Já estava tarde quando cheguei a minha casa. Deitei-me em meu leito e senti meu corpo num intenso calafrio. Nenhuma coberta me aquecia, retraía-me contorcionando meu próprio corpo. Uma brisa de insegurança me atingiu, eu estremeci, caiu uma lágrima, duas; gemi, meus dentes batiam freqüentemente, meu ouvido tampava à medida que movimentava meu maxilar, minha face endureceu, minha barriga ressonava um murmúrio baixo, o estômago latejava, abracei a dor e a fraqueza dominou-me.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

before nothing can be done

Acordei com a luz ofuscando meus semicerrados olhos. Ao invés do esperado mal-humor, o sorriso me atingiu a face majestoso ao fitar o imenso mar cristalino. As ondas batiam tão sutilmente de modo eu poder fielmente acreditar que elas apenas existiam devido à respiração dos minúsculos peixes visíveis da margem, a água deixavam viva, alegre e colorida. Talvez o vento ainda não houvesse despertado, apesar dos bem-te-vis estarem proclamando a chegada do novo dia desde o primeiro raio de sol. Até que senti uma leve brisa vindo a minha direção e antes que eu pudesse me virar, a voz doce e inconfundível sussurrou em meu ouvido, logo após retirar quase despercebidamente uma mecha de meus cabelos: ‘trago-lhe hoje uma lembrança’. Meu peito doía de tanta felicidade. Agora eu sabia por que motivo eu me encontrava naquele lugar deserto, ou quase, e tão maravilhoso. Eu havia conquistado o amor ideal, aquele que as pessoas se sentem tão compenetradas que parecem apenas uma, não há mais nada ao redor paralelo para elas. Mas não era um simples amor, era divino, o maior de todos.
Eu me sentia agora independente e complacente, minha alma era lúcida, forte e dotada de sabedoria, meu coração estava confortado na imensa graciosidade; nada poderia me extraviar de seu caminho agora.